Entrevista com Francisco Martins

Entrevista com Francisco Martins

Pode ser surpreendente… Mas assim que a Primavera Editorial se viu diante da escolha sobre quem deveria criar o projeto gráfico de um livro sobre gravidez, a editora escolheu – mais do isso, exigiu – que fosse um homem!

Francisco Martins, 28 anos, foi o escolhido para tarefa.  Editor de arte na Project Nine Editorial, estúdio focado no mercado editorial, Francisco já havia trabalhado com a editora em outros projetos e aceitou o desafio sugerido pela Primavera.

Nesta entrevista, Francisco Martins conta como foi o processo de criação do projeto gráfico – que é acessível para as mamães – e como foi para ele, um homem, participar dessa empreitada.

  • Quando você foi convidado para criar o projeto gráfico de Embaraçada, qual foi o seu primeiro pensamento?

Meu primeiro pensamento foi um misto de receio e medo. Trabalhar em um livro que aborda um tema delicado como a gravidez, sendo homem, foi algo que me colocou à prova sobre como poderia criar algo realmente fiel à obra.

 

  • Você tem uma grande experiência no mercado editorial, já trabalhou com diversas editoras. Apesar dessa experiência, você disse que sentiu certo receio ao criar esse projeto especificamente. Por quê?

Sim! Vamos lá, eu sou homem, trabalhando em um livro em que o tema tem uma visão feminina, no qual a autora relata como a gravidez é no dia a dia. Isso colocou uma pressão sobre o meu trabalho, precisava juntar todas aquelas informações que a autora colocava no livro de uma forma clara e sem interferir.

 

  • Podemos dizer que o projeto foi pensado e executado para mulheres grávidas. Desde o tamanho do livro até a decisão de ter as margens das páginas maiores… Quais são as particularidades do projeto gráfico?

Conversando com a editora, uma das exigências era que o projeto fosse de fácil manuseio, desde a leitura até a forma que o livro se comportava na mão.

Um dos aspectos mais notáveis no projeto são as margens. As margens interna e inferior são bem arejadas, se comparadas a projetos “tradicionais”. Essa técnica foi utilizada para que as leitoras consigam segurar o livro de várias formas. Vão poder ler e amamentar o bebê, por exemplo.

Se as margens tivessem o tamanho “tradicional”, provavelmente, a mão da leitora ficaria em cima do texto. Esse foi um aspecto muito importante para o livro, já que as mães passam uma boa parte do tempo amamentando. Além disso, onde existe diálogos de textos web, colocamos balões similares aos que utilizamos no dia a dia, e isso deixa a leitora mais próxima do livro, já que esses estilos estão presentes no nosso cotidiano.A fonte foi cuidadosamente escolhida para que tivesse uma boa leitura com um tamanho ideal. Uma das curiosidades que descobri com a editora é que, na fase da gravidez, algumas mães têm a visão reduzida. Não é comum, mas pode acontecer. As entrelinhas e o tamanho de fonte foram cuidadosamente pensados visando esse aspecto.

 

  • Qual a importância de se criar um projeto gráfico mais acessível para as grávidas?

Neste livro, nosso trabalho foi voltado para que a leitora ficasse o mais confortável possível com o livro na mão, e que a leitura não fosse cansativa. Acredito que todo projeto gráfico deva ser acessível, muitos aspectos passam despercebidos entre as leitoras, é algo que fica invisível mesmo, mas ajuda muito no resultado final do livro.

 Nosso trabalho é estudar para que o livro fique o mais confortável possível, que as fontes e cores fiquem agradáveis para as leitoras.

 

  • Como foi esse processo para você?

Gostei muito! Para construir o projeto e a capa fiz pesquisas, conversei com amigas  gestantes, conversei bastante com as editoras e isso me trouxe uma nova visão sobre o assunto. Quando vemos o projeto pronto e notamos as leitoras comentando sobre o livro de forma positiva… Isso é algo gratificante.

 

  • A capa do livro chama bastante a atenção pela cor e por ter muitos elementos. Isso foi proposital? Por quê?

Sim, a capa tem elementos que fazem parte do livro, elementos visuais que reforçam o título e o tema do livro. A capa tem um estilo mais jovem, reforça essa ideia de bagunça, embora esteja bem organizada. Na hora da criação, pensei que a capa deveria ter algo com que a mulher se identifica. Depois de pensar muito, me veio a ideia, um elemento que a mulher tem contato, e, muitas vezes, ela é a primeira pessoa a ter esse contato, é o start para a gravidez. Não vou contar, deixo no ar… Espero que gostem! Rs.

 

  • Atualmente, há muitos movimentos, grupos e afins que trabalham em prol do empoderamento feminino. Para você, como foi participar de um projeto de uma editora voltada ao público feminino, que tem como um de seus objetivos o empoderamento da mulher e que agora lança um título que revela à sociedade a verdade sobre a gravidez?

É muito importante. Trabalhei em outros títulos da Primavera e aprendi com todos. Em todas as conversas que tenho com a Larissa (publisher da Primavera) sobre os livros, aprendo algo novo, derrubo barreiras e quebro estereótipos. Acredito que todo esse trabalho me tornou uma pessoa mais consciente sobre o papel da mulher na sociedade, e, a partir de agora, cabe a mim passar esse conhecimento adquirido para outras pessoas.

 

  • Você se chocou em algum momento da leitura do livro? Em qual parte?

Pg 168. Tem uma parte do livro em que a autora descreve a parte da primeira amamentação. Ela fica apreensiva se tudo vai dar certo, se o bebê irá reconhecê-la como mãe. Isso mostra o quanto um pequeno ato que, às vezes, para o homem é algo simples, deixa a mãe em grande pressão frente à sociedade e até às suas próprias expectativas.

 

  • Você indicaria o livro para algum amigo seu? E para amigas?

Claro! Para o próximo papai que aparecer, esse será um presente para ambos. Para que fiquem tranquilos, porque a gravidez é embaraçada, sim, mas, no fim, tudo dá certo.

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